Protegido: O tempo demora

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Protegido: Desencontros

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A esperança

É preciso dar crédito às boas histórias. Nem tudo é tão nebuloso e frio em uma separação. Por mais difícil que seja enxergar isso, em alguns momentos aparecem luzes. Pequenas, mas loucas para serem descobertas. Discretas, mas com potencial para brilhar. Quem sabe um futuro diferente de tudo o que eu imaginava me transformar ao seu lado não está esperando por mim? Se é que eu imaginava mesmo algum futuro ao seu lado. Em alguns momentos vislumbro uma expectativa deliciosamente desconhecida. Uma mistura de medo, ansiedade, esperança, novidade e até alegria, por que não? Como uma criança que fica com dor de barriga esperando o dia da festa de aniversário.

É como se a dor parasse um pouco pra tomar fôlego. Aproveitando a brecha, um mundo totalmente novo e colorido dá pulinhos à frente dos meus olhos. As cores dizem: “Ei, você! Olha só o que te espera agora, nada mais te prende, vem me explorar!”. Eu até ensaio um leve sorriso.

Essa é uma realidade que reluto em encarar. Por quê? Oras, porque eu me alimento do sofrimento. Preciso das lágrimas para viver esse amor. Enquanto eu sofrer e chorar por você posso te manter vivo dentro de mim. No exato momento em que eu reconhecer a infinidade de possibilidades que a vida me oferece vou eliminar você para sempre. Mas não porque você me deixou, desta vez serei EU a te deixar. Vou deixar a rejeição e as cicatrizes que você me deu, para descobrir eu mesma. É que talvez eu ainda não esteja pronta para deixar você. Ainda não. Ou talvez não esteja pronta para ficar comigo mesma.


Protegido: O desconsolo

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Continua…

Assim se seguiram os dias. Eu me afogava, mas não morria.
Sangrava, mas não se ia. A dor só fazia aumentar. Com o peito rasgado e os pulmões encharcados a dor crônica não me deixava levantar. Mas era preciso. No resto do mundo o sol nascia, as pessoas levantavam de suas camas e iam para a rua. A noite aparecia só para mim. Quem me esperava para um trabalho ou um compromisso não compartilhava minha escuridão. Com algumas equipes de salvamento fazendo buscas e tentando me reanimar (os amigos me achavam e me perdiam, eles me ressuscitavam e eu fugia) consegui levantar por um breve período. Ainda havia muita água em meus pulmões. Mesmo assim eu conseguia respirar por instantes rápidos e o mínimo oxigênio que chegava ao meu cérebro alimentava a energia necessária para dois dias de trabalho.

Quando acabou, o ar desapareceu de vez e lentamente fui mergulhando sem cilindro e máscara no mar de dor em que minha vida se transformara.

Até que me afoguei novamente. E como em um naufrágio, após horas de gritaria e aflição, havia apenas o silêncio. O silêncio de mortes e vidas se acabando há milhares de quilômetros do continente. Assim eu senti tudo outra vez.


A dor

Saí daquele apartamento turvo. Correndo, fugindo, nadando. Eu vagava no fundo do oceano, com os pulmões tomados pela dor que suas palavras me causaram. Como um cadáver eu rolava na arrebentação. Mas não estava perto da areia, estava em alto mar. Precisava pensar no que fazer com toda aquela água que me impedia de respirar. Mas eu não tinha forças. Não sabia como reagir, não podia mexer os braços e as pernas para emergir. Não sabia como nadar no mar do fim de um relacionamento. Talvez ninguém saiba, porque cada fim é diferente. E aquele fim em particular tapava minhas narinas e preenchia as vias respiratórias. Essa era a sensação. De não respirar, de me afogar, de engolir aquela água toda de dor. Lembrava gosto de sangue. Lembrava gosto de morte. Eu sentia a morte chegar, era óbvio. Se eu estava afogada, solta e não sabia nadar, a morte era meu único destino.

Mas a morte parecia zombar de mim. Olhava-me do alto e não me levava. Só observava meu lento sofrimento e ria.

Era assim que eu me sentia, como se estivesse morrendo. Uma dor que apertava o coração até quase esmagá-lo, mas o deixava vivo, para que fosse sentida com uma intensidade sem fim. Eu me sentia perdida nas profundezas de um universo paralelo, implorando para morrer, ou simplesmente dormir. Aquela dor não ia passar, ia me destruir. “Me leve daqui Dona Morte. Por que me deixa sofrer assim? Me leve de uma vez porque se essa dor que sinto não é a morte, então não sei o que pode ser pior”.


O fim

Meus pés tocaram o nada naquele momento. Eu flutuava, mas não era para o alto, era para o abismo. Não havia chão abaixo de mim, eu estava em queda e não percebia. Não entendia que aquele era o momento do fim. Ou não queria entender.

Suas palavras iam entrando em meus ouvidos como estacas e perfuravam meus tímpanos. “Nosso relacionamento não tem futuro”, “Estamos juntos, mas não estamos”, “Não vejo a gente junto para sempre”. Era tanta dor que eu estava anestesiada. Uma tontura tomou conta de mim. Você estava causando um efeito alucinógeno. Eu não controlava meus sentidos. Só tinha a sensação de que tudo estava desmoronando à minha volta. Eu não tinha mais alicerce. Assim foi o fim.

Mas eu não podia aceitar. Meu cérebro ignorava o significado de suas palavras mesmo sabendo que meu coração já sangrava em pedaços.

Eu repetia: “Mas e se…”, “Mas como?”, “Mas por quê?”. E tantos “mas” não me davam explicação alguma. Como eu nunca tinha visto isso? Como eu não percebi que há anos você deixava de me amar? Ou que você nunca me amou? Como eu pude ser tão cega e não perceber que aquele vazio em minha vida também era seu? O ensaio de amor que havia era muito pouco. Transformou-se em uma corrente enferrujada do navio naufragado em que estávamos nos afogando.

Naquele dia você pegava seu bote salva-vidas enquanto eu afundava com o navio. O navio do nosso relacionamento. Um barco velho, com uma pintura nova por fora, mas cheio de vãos podres e decadentes por dentro.

Um dia ia afundar mesmo. Ou com nós dois, ou com um de nós. Afundou comigo.