O tempo demora

Essa é a constatação mais difícil que eu tive: como o tempo demora.

É como se ele não passasse, apenas fingisse. Esse tempo dissimulado me deixa aprisionada no primeiro dia em que me vi sem você. Fico vagando pela dor que deveria estar distante, mas me persegue como o metal é atraído pelo imã.

Quando eu penso que estou quase curada, quando acho que tenho lembrado pouco de você, ou pelo menos da sua parte boa, vem outra onda de sofrer. Vem um e-mail, chegam correspondências, chegam pendências.

Pro inferno com suas pendências!

Por que você simplesmente não joga tudo fora, como jogou meu amor por você? Foi tão fácil mandar para o lixo a vida que eu dediquei ao nosso amor, não foi? Por que agora é difícil jogar fora cartas de banco que chegam ao teu endereço, que um dia já foi meu?

Tenho vontade de responder: apague meu e-mail, não me procure mais, não me ligue, não pergunte, nunca mais. Deixe-me em paz para todo o sempre, senão eu não consigo. Mas também não consigo assumir a responsabilidade de te afastar de mim. Porque esse é todo o motivo da minha dor: a esperança silenciosa que está acesa como uma brasa anêmica no fundo da minha alma. Enquanto essa brasa não se apagar, meu coração nunca vai deixar de queimar.

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Desencontros

Você disse que a gente se perdeu. Que em algum momento da relação, nos perdemos. A verdade é que a gente nunca se encontrou. Isso mesmo. Eu nunca soube quem era você realmente, nem você conheceu as entranhas dos meus pensamentos.

Minha cabeça ia e voltava o tempo todo. As lágrimas vertiam e eu as cessava com a mesma rapidez que elas afloravam. Se você aparecia perto, se tentava se aproximar, eu acorrentava meu ser. Era como se houvesse outra dentro de mim. Apavorada, com medo de se revelar e desaparecer, ou fazer você desaparecer.

Eu sabia que era assim. No fundo eu sabia que aquilo não podia mais continuar, estava acabando comigo. Ou com a outra de mim. Qual era a verdadeira mulher? Difícil saber. Isso era o que mais doía: não saber quem eu era. Você estava errado quando disse que a gente se perdeu, mas estava certo porque EU me perdi. Perdi minha identidade em meio à sua, que também não era verdadeira. Perdi minha personalidade porque me ocupei de idealizar você como eu queria que você fosse. Ocupei-me de pensar num futuro que nunca existiria. O tempo todo eu concebia a cura do nosso relacionamento. Uma cura que eu sabia que não chegaria nunca. Mas conceber a ruptura era muito pior, muito mais doloroso, melhor me iludir com esperanças amareladas. Quem sabe um dia a gente acordaria pela manhã e como por um milagre um enxergaria o outro, tal qual era? Por que não? O amor não é tão poderoso? Mas será que era amor o que havia? Talvez fosse conforto. Apenas um consolo de companhia. De que não estávamos sozinhos nessa cidade louca. O temido comodismo rondava nossas vidas desde o começo, mas nós fingíamos não enxergá-lo.


A esperança

É preciso dar crédito às boas histórias. Nem tudo é tão nebuloso e frio em uma separação. Por mais difícil que seja enxergar isso, em alguns momentos aparecem luzes. Pequenas, mas loucas para serem descobertas. Discretas, mas com potencial para brilhar. Quem sabe um futuro diferente de tudo o que eu imaginava me transformar ao seu lado não está esperando por mim? Se é que eu imaginava mesmo algum futuro ao seu lado. Em alguns momentos vislumbro uma expectativa deliciosamente desconhecida. Uma mistura de medo, ansiedade, esperança, novidade e até alegria, por que não? Como uma criança que fica com dor de barriga esperando o dia da festa de aniversário.

É como se a dor parasse um pouco pra tomar fôlego. Aproveitando a brecha, um mundo totalmente novo e colorido dá pulinhos à frente dos meus olhos. As cores dizem: “Ei, você! Olha só o que te espera agora, nada mais te prende, vem me explorar!”. Eu até ensaio um leve sorriso.

Essa é uma realidade que reluto em encarar. Por quê? Oras, porque eu me alimento do sofrimento. Preciso das lágrimas para viver esse amor. Enquanto eu sofrer e chorar por você posso te manter vivo dentro de mim. No exato momento em que eu reconhecer a infinidade de possibilidades que a vida me oferece vou eliminar você para sempre. Mas não porque você me deixou, desta vez serei EU a te deixar. Vou deixar a rejeição e as cicatrizes que você me deu, para descobrir eu mesma. É que talvez eu ainda não esteja pronta para deixar você. Ainda não. Ou talvez não esteja pronta para ficar comigo mesma.


O desconsolo

Antes disso tive que voltar ao apartamento. Entrar no que pareciam ser os destroços do navio afundado. Ainda estavam bonitos, brilhantes e reluzentes, afinal o naufrágio era muito recente. Mas doía demais olhar para aquele brilho todo e saber que aquilo não era mais minha vida. Não me pertencia. Nada daquilo era meu. Era preciso admitir que a luz que reluzia era uma bijuteria e não uma joia. Mas era MINHA bijuteria. Eram MEUS cacos e mesmo quebrados e amassados, era daquilo que eu vivia. E agora? Qual seria a matéria-prima da minha vida? O que eu poderia usar para construir tudo de novo? Eu não quero construir nada. Quero minha vida de volta. Meu Deus como dói quanto te arrancam tua vida. É como tirar um bebê do útero da mãe. Eu tinha tudo: uma casa, um amor, uma cama. Tinha o conforto de uma relação, o consolo de uma companhia. E agora me tiraram tudo. Sem explicação. Era a negação que confrontava meus sentidos: não, isso é um pesadelo, isso não está acontecendo comigo. Eu não posso perder tudo assim…

Mas será que eu tinha mesmo tudo?

Não dava para enxergar o que era claro. A dor cegava meus olhos e confundia meu cérebro. Eu não via o que era real. Não sentia a realidade que gritava em meus ouvidos: VOCÊ NÃO ERA FELIZ AQUI! VOCÊ NÃO QUERIA ESSA VIDA! ESSA NÃO ERA SUA CASA! Eu tapava as orelhas com as mãos como uma criança teimosa. A única voz que ouvia era de um eu aflito, agoniado, amargurado, desconsolado. Mas aquele desconsolo todo há de ser normal quando o fim chega, mesmo que fosse esperado. É como um animal que sofre sem cura e precisa ser sacrificado. Mesmo sabendo, bem no fundo, que o sacrifício vai ser melhor, ele reluta em dizer adeus à própria vida.


Continua…

Assim se seguiram os dias. Eu me afogava, mas não morria.
Sangrava, mas não se ia. A dor só fazia aumentar. Com o peito rasgado e os pulmões encharcados a dor crônica não me deixava levantar. Mas era preciso. No resto do mundo o sol nascia, as pessoas levantavam de suas camas e iam para a rua. A noite aparecia só para mim. Quem me esperava para um trabalho ou um compromisso não compartilhava minha escuridão. Com algumas equipes de salvamento fazendo buscas e tentando me reanimar (os amigos me achavam e me perdiam, eles me ressuscitavam e eu fugia) consegui levantar por um breve período. Ainda havia muita água em meus pulmões. Mesmo assim eu conseguia respirar por instantes rápidos e o mínimo oxigênio que chegava ao meu cérebro alimentava a energia necessária para dois dias de trabalho.

Quando acabou, o ar desapareceu de vez e lentamente fui mergulhando sem cilindro e máscara no mar de dor em que minha vida se transformara.

Até que me afoguei novamente. E como em um naufrágio, após horas de gritaria e aflição, havia apenas o silêncio. O silêncio de mortes e vidas se acabando há milhares de quilômetros do continente. Assim eu senti tudo outra vez.


A dor

Saí daquele apartamento turvo. Correndo, fugindo, nadando. Eu vagava no fundo do oceano, com os pulmões tomados pela dor que suas palavras me causaram. Como um cadáver eu rolava na arrebentação. Mas não estava perto da areia, estava em alto mar. Precisava pensar no que fazer com toda aquela água que me impedia de respirar. Mas eu não tinha forças. Não sabia como reagir, não podia mexer os braços e as pernas para emergir. Não sabia como nadar no mar do fim de um relacionamento. Talvez ninguém saiba, porque cada fim é diferente. E aquele fim em particular tapava minhas narinas e preenchia as vias respiratórias. Essa era a sensação. De não respirar, de me afogar, de engolir aquela água toda de dor. Lembrava gosto de sangue. Lembrava gosto de morte. Eu sentia a morte chegar, era óbvio. Se eu estava afogada, solta e não sabia nadar, a morte era meu único destino.

Mas a morte parecia zombar de mim. Olhava-me do alto e não me levava. Só observava meu lento sofrimento e ria.

Era assim que eu me sentia, como se estivesse morrendo. Uma dor que apertava o coração até quase esmagá-lo, mas o deixava vivo, para que fosse sentida com uma intensidade sem fim. Eu me sentia perdida nas profundezas de um universo paralelo, implorando para morrer, ou simplesmente dormir. Aquela dor não ia passar, ia me destruir. “Me leve daqui Dona Morte. Por que me deixa sofrer assim? Me leve de uma vez porque se essa dor que sinto não é a morte, então não sei o que pode ser pior”.


O fim

Meus pés tocaram o nada naquele momento. Eu flutuava, mas não era para o alto, era para o abismo. Não havia chão abaixo de mim, eu estava em queda e não percebia. Não entendia que aquele era o momento do fim. Ou não queria entender.

Suas palavras iam entrando em meus ouvidos como estacas e perfuravam meus tímpanos. “Nosso relacionamento não tem futuro”, “Estamos juntos, mas não estamos”, “Não vejo a gente junto para sempre”. Era tanta dor que eu estava anestesiada. Uma tontura tomou conta de mim. Você estava causando um efeito alucinógeno. Eu não controlava meus sentidos. Só tinha a sensação de que tudo estava desmoronando à minha volta. Eu não tinha mais alicerce. Assim foi o fim.

Mas eu não podia aceitar. Meu cérebro ignorava o significado de suas palavras mesmo sabendo que meu coração já sangrava em pedaços.

Eu repetia: “Mas e se…”, “Mas como?”, “Mas por quê?”. E tantos “mas” não me davam explicação alguma. Como eu nunca tinha visto isso? Como eu não percebi que há anos você deixava de me amar? Ou que você nunca me amou? Como eu pude ser tão cega e não perceber que aquele vazio em minha vida também era seu? O ensaio de amor que havia era muito pouco. Transformou-se em uma corrente enferrujada do navio naufragado em que estávamos nos afogando.

Naquele dia você pegava seu bote salva-vidas enquanto eu afundava com o navio. O navio do nosso relacionamento. Um barco velho, com uma pintura nova por fora, mas cheio de vãos podres e decadentes por dentro.

Um dia ia afundar mesmo. Ou com nós dois, ou com um de nós. Afundou comigo.