Continua…

Assim se seguiram os dias. Eu me afogava, mas não morria.
Sangrava, mas não se ia. A dor só fazia aumentar. Com o peito rasgado e os pulmões encharcados a dor crônica não me deixava levantar. Mas era preciso. No resto do mundo o sol nascia, as pessoas levantavam de suas camas e iam para a rua. A noite aparecia só para mim. Quem me esperava para um trabalho ou um compromisso não compartilhava minha escuridão. Com algumas equipes de salvamento fazendo buscas e tentando me reanimar (os amigos me achavam e me perdiam, eles me ressuscitavam e eu fugia) consegui levantar por um breve período. Ainda havia muita água em meus pulmões. Mesmo assim eu conseguia respirar por instantes rápidos e o mínimo oxigênio que chegava ao meu cérebro alimentava a energia necessária para dois dias de trabalho.

Quando acabou, o ar desapareceu de vez e lentamente fui mergulhando sem cilindro e máscara no mar de dor em que minha vida se transformara.

Até que me afoguei novamente. E como em um naufrágio, após horas de gritaria e aflição, havia apenas o silêncio. O silêncio de mortes e vidas se acabando há milhares de quilômetros do continente. Assim eu senti tudo outra vez.

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