Cheiros do mundo

Hoje, caminhando pelas ruas de Dublin em direção ao centro da cidade, tive uma memória olfativa deliciosa! Um cheiro de chiclete de tuti-fruti que me levou direto a uma infância feliz e colorida. Não era ping-pong, nem babalu (bubballo)… Não consegui encontrar o nome do dito cujo nos arquivos do meu cérebro, mas aquele cheiro é inesquecível. E era o mesmo, exatamente o mesmo do chiclete de mais de 25 anos atrás, no Brasil. 

O cheirinho de chiclete de tuti-fruti me deixou feliz. Comecei a rir sozinha pela rua. Isso é o que chamo de memoria olfativa, quando um cheiro desperta todas as sensações que foram arquivadas com ele.

Fiquei feliz em saber que os cheiros não mudam de um continente para outro. Isso quer dizer que outras lembranças podem voltar!

Entre os cinco sentidos humanos (seis, no caso das mulheres!), o mais forte é o olfato. Podemos esquecer o rosto daquela pessoa que vimos poucas vezes, esquecer coisas que nos disseram um dia. Às vezes quase nos esquecemos do gosto daquela comida, da textura da roupa. Mas o cheiro? Esse não se perde jamais.

É como o perfume de massa de modelar e giz de cera. Leva-me direto para a sala de aula da pré-escola, as mesas distribuídas em círculo e aquela barulheira de crianças falando ao mesmo tempo. Esse faz tempo que não sinto.

O cheiro de protetor solar, aquele Sundown mais baratinho, me leva á praia, mas não à praia de baladas e cerveja gelada. O Sundown me leva para a praia de quando eu era criança, com baldinhos e castelos de areia.

Cheiro de feijão no fogo lembra minha mãe. E parece que até ouço o ruído da panela de pressão, quando vem o aroma… shhh! shhh! shhh!

E ainda tem aquele perfume, todo mundo tem um na memoria, que traz de volta em instantes o abraço do amor antigo.

Cheiros trazem sentimentos. Saudades, amor, tristeza, felicidade.

Cheiro de terra molhada, cheiro de vela, cheiro de maresia, cheiro de pão no forno…

Cheiro de vida e de boas histórias pra contar!

Anúncios

Merry Christmas!

Se algumas vezes um post no melhor estilo “meu querido diário” é justificável, essa é uma delas. Um Natal em Dublin. O primeiro Natal fora do Brasil. O primeiro Natal na Europa.

Passar essa data longe de casa não era nem de longe uma das minhas preocupações ao decidir fazer intercâmbio. Primeiro porque nunca fui muito fã do tal espírito natalino, segundo porque já passei outros natais longe da família, há mais de mil quilômetros de distância, trabalhando, e sobrevivi até bem.

Mas num país estranho a coisa muda de figura. Quanto mais dezembro avançava e mais eu ouvia as músicas natalinas, via as promoções de perus e a decoração brilhando pela cidade, mais meu coração amolecia. Até que fiquei realmente preocupada em saber como seria meu Natal. Tinha o convite de um amigo brasileiro para a ceia do dia 24, mas eu não conhecia a grande maioria dos participantes. Será que iria me sentir sozinha? Será que sentiria tanta saudade da família que passaria o dia chorando? E aqui em casa? Como minhas flatmates irlandesas iriam comemorar o Natal? Descobri às vésperas da data que os irlandeses não celebram absolutamente nada no dia 24. A ceia, com peru e pernil, acontece no dia 25. Eles chamam de dinner (jantar), mas começam a comer por volta das três horas da tarde. A véspera é apenas um dia comum.

Uma das irlandesas que dividem a casa comigo se encarregou da ceia, que seria aqui mesmo. Então, as duas irlandesas iriam receber suas famílias para um típico natal irlandês.
Mas a minha ceia seria no dia 24, portanto eu estaria em casa no dia seguinte e sem programação. Ofereci ajuda, mas tudo já estava providenciado, então comprei algumas nozes, castanhas e frutas secas para compor a mesa.

E parti para o Natal brasileiro. Lá descobri que todos estavam na mesma situação: brasileiros (a maioria), italianos, indianos, franceses, todos longe de suas famílias, como se tivessem caído do trenó do Papai Noel. E pouca gente realmente se conhecia. Peru, farofa, pernil e até rabanada! Comida não faltou. Mas a surpresa ficou por conta da união e do carinho que experimentei ali. Durante a festa, uma brasileira convidou quem quisesse para uma pequena oração, longe da música e da bebida. Pessoas antes desconhecidas se deram as mãos e rezaram juntas. Agradeceram umas às outras e a Deus pelo momento e pela oportunidade. Lágrimas, emoção e abraços. É, o tal espírito natalino foi mesmo contagiante.

E ainda tinha muito mais reservado para mim! No dia seguinte, em casa, acordei e entreguei os presentes comprados para as minhas flatmates, em agradecimento pela calorosa acolhida durante o primeiro mês de intercâmbio. Para minha surpresa, também ganhei presentes! Então as famílias começaram a chegar. E eu fui ficando assustada, porque dois irlandeses conversando ao mesmo tempo já é difícil de entender, imaginem oito! E dizem que os mais velhos tem um sotaque ainda mais forte, por isso quando os pais delas chegaram, alguns já mais idosos, fiquei desesperada! Foi aquela bagunça e eu não entendia uma palavra, a não ser “Happy Christmas”.

Quando fui apresentada à Mrs. Fletcher, a matriarca da família (descobri que minhas duas flatmates são da mesma família), ela me entregou um presente e disse “this is for you, darling!” (Isso é para você querida!). Sem esconder a surpresa abri o pacote e encontrei uma linda caixinha de música, igualzinha àquelas que vemos nos filmes. O jantar, embora servido às três da tarde, foi maravilhoso! Eu não entendia muita coisa do que se falava, mas volta e meia alguém se concentrava em mim e perguntava algo sobre o Brasil e eu entrava devagar na conversa. Todos foram adoráveis e me fizeram sentir parte da família. Depois de ligar para o Brasil e me emocionar um pouco trocando algumas palavras com minha mãe, acho que finalmente entendi o espírito natalino! Depois de 30 anos entendi que no Natal não importa quem você é ou de onde você veio, você será sempre bem-vindo e bem recebido por todos. Melhor mesmo é estar perto da família de verdade, mas se isso não for possível, sempre tem um pouco de carinho sobrando em algum lugar, basta estar disposto e aberto para receber!

Merry Christmas!


Take care of yourself

Uma expressão em inglês que eu gosto muito é “take care”. Na tradução literal quer dizer “tome cuidado”, mas o sentido é algo como “cuide-se” em português. É mais usado como um complemento quando você diz até logo, tchau, quando se despede de alguém. Os irlandeses dizem para todo mundo, não só para os amigos. Até o caixa do mercado, quando você diz “see you”, diz “take care”.
Mas eu ainda prefiro a mais completa: “take care of yourself”. O significado é o mesmo, mas o yourself (você mesmo) representa uma independência pra mim.

Descobri isso essa semana, quando tive que cuidar de mim mesma durante uma gripe daquelas. Take care of yourself! Claro, vou fazer isso. Já estou fazendo!

Afinal, quantos de nós conseguimos cuidar de nós mesmos? Quantos de nós conseguimos realmente pensar em nós mesmos, dedicar um tempo só para nós?

Reflexões que chegam com a necessidade.                                 

Gripe, dor, febre. Ninguém para fazer uma canja, comprar um remédio, fazer um chá com mel. Só eu. Então você percebe que sim, é possível cuidar de si mesma. E o melhor: é bom!

Sabe quando um amigo precisa de um ombro, de um cafuné, de um cuidado especial? Sentimos prazer em fazê-lo, não é verdade? Então por que não sentir prazer em cuidar de nós mesmos?

Coisas que aprendemos quando permitimos ficar apenas em nossa própria companhia. Como é bom cuidar de mim, como é bom me ver bem, como é bom gostar de mim e cultivar esse amor!

Take care of yourself!


luz

Como podia imaginar que a luz estava dentro dela?

Viveu por tanto tempo no escuro.

Estava tão acostumada com a noite, que nunca havia pensado em procurar o dia.

Parece ironia, mas a luz estava ali o tempo todo, brilhando intensamente.

Agora que descobriu, nunca mais vai ficar no escuro.

A não ser quando fechar os olhos para sonhar…


Queijo brie

Hoje, pela primeira vez desde que cheguei à Irlanda, há um mês, pensei em ficar. Não por um ano, mas por dois, três, quem sabe pra sempre.

Mas pra sempre é muito tempo. Será?

Não fui uma reflexão, foi só um pensamento qualquer, resultado de uma conversa em sala de aula. O debate era sobre empregos na crise do Euro e evoluiu para comparações. Tenho a companhia de apenas mais uma brasileira em uma classe de árabes, coreanos, japoneses e chineses, e tentávamos explicar para eles a diferença entre o poder de compra do dinheiro no Brasil e na Europa… Sobre como o salário mínimo pode comprar uma vida decente aqui, enquanto em nosso país mal paga uma cesta básica. Isso porque a Europa está em crise.
Enquanto caminhava de volta para casa, com o rosto congelado pelo vento frio, fiquei pensando em como me acostumar com o mercado quando voltar ao Brasil. Vai ser difícil comprar queijo brie, molho de tomate pronto igual ao da Dona Delsa, chás maravilhosos, nozes, damascos, leite, café, carne, verduras, chocolate e montes de iogurtes com apenas dez reais. Foi aí que senti vontade de ficar, para continuar comendo queijo brie todo dia!


Experimentar

Muito mais do que aprender outra língua e vivenciar outra cultura, um intercâmbio é um aprendizado sobre nós mesmos. Em nosso país não temos tantas chances de ficar em nossa própria companhia por tanto tempo. Principalmente nos primeiros dias. E ainda, descobrir como somos capazes de reinventar novas maneiras de fazer as coisas mais triviais, como cozinhar, fazer compras, dormir, tomar banho.
Em outro continente podemos confrontar todas as nossas experiências e a nossa força, percebendo como está nossa capacidade de adaptação. Ninguém fala sua língua, ninguém entende sua língua. No supermercado os produtos são ininteligíveis e as primeiras compras são um teste de resistência e paciência. As portas são diferentes, as janelas são diferentes, o fogão é diferente, a rotina é outra. Até mesmo usar o transporte público pode ser uma aventura, já que o motorista não entende pra onde você quer ir (às vezes nem você sabe).
Os momentos de solidão, quando não há nem um familiar na internet, nem um brasileiro por perto, nem um estrangeiro com um sotaque mais leve, são os mais importantes. É nessa hora que temos a chance de escolher qual vai ser nossa atitude durante as intempéries que virão. Pode ser encarar logo que a vida mudou e precisamos mudar também ou pode ser desistir das mudanças e se forçar a viver esperando o momento de voltar de casa.
A escolha não é fácil, mas é necessária, afinal será um ano aqui. 365 dias provando que gosto têm essas novas sensações ou 365 dias observando o tempo passar.
Eu já comecei a provar. Provei o sabor do café, o sabor do chocolate, de cozinhar com ingredientes diferentes (de cozinhar simplesmente…) de falar, ou tentar falar, uma nova língua, de fazer amigos apenas por mímica…
Posso dizer que gosto do que vejo. Gosto de como me vejo. E pretendo me descobrir a cada dia, a cada chuva, a cada vento, a cada palavra nova, dita ou não dita.