Marcas

Um coração quebrado nunca se recupera. Continua batendo, mas nunca do mesmo jeito.

A cicatriz está ali para lembrar o que aconteceu, e estará sempre.

Tudo muda. Uns dizem que para melhor, outros para pior.As relações não são mais as mesmas. Os sentimentos também não.

Como não existe certo e errado nunca saberemos se a mudança foi boa. Talvez tenho sido apenas uma mudança, palavra que por si só já é forte o suficiente.

O coração que se quebra também aprende. Aprende a cada lágrima, a cada dor. Aprende a ser mais livre dos outros e mais dependente de si mesmo.

Mas a dor, aquela mais profunda, nunca se vai totalmente. Ela só se esconde nas cicatrizes, emergindo esparsas vezes para fazer chorar, e depois para fazer reerguer.

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A hora do rush

Semana passada, às seis horas da tarde, eu andava pelo centro de Dublin com pressa, como há muito tempo não fazia desde que decidi viajar. Aquela pressa da rotina, sabe, de sair rápido do trabalho, passar no mercado comprar uma besteira qualquer para o jantar, de chegar em casa e encerrar o dia logo. Vi-me parte do movimento frenético da multidão. Apesar de ter pouco mais de 500 mil habitantes, excluindo a região metropolitana, o centro da cidade é tomado por um ritmo alucinante já a partir das cinco da tarde. Pessoas vão e vêm, apressadas, conversando em diferentes idiomas, já que Dublin recebe imigrantes de inúmeros países.

Foi aí que tudo parou, como num roteiro de cinema, quando a cena entra em destaque: os carros no congestionamento, buzinando, a escuridão do cair da noite, os passos ligeiros, o barulho… E eu me dei conta de como sinto falta disso tudo! Como me falta um congestionamentozinho de fim de tarde… Sei que a essa altura muita gente deve estar imaginando que o intercâmbio me deixou pinel! Mas é a mais pura verdade: eu sou urbana. Sou da poluição, sou do rush, sou da vida louca! Sinto falta da rotina de uma metrópole. Preciso das luzes da cidade grande para me sentir viva.

Moro num bairro afastado do centro. Para uma cidade como Dublin, considera-se 15 minutos de ônibus relativamente afastado. A região é totalmente residencial, mas suficientemente abastecida com supermercados, farmácias e pequenas lojas. A escola é perto de casa, então não preciso ir até o centro da cidade toda semana. Tenho tudo o que preciso aqui. E essa tranquilidade acarreta um certo clima de interior, com direito a vizinhos nos jardins dizendo bom dia!

Definitivamente, sossego não foi feito para mim. Pelo menos não por mais de três semanas. Por isso foi bom lembrar que o centro da cidade está logo ali, e que ainda tenho muito o que desvendar por lá.
Naquele dia eu me juntei à multidão mais por luxo do que por necessidade. Estava apenas saindo de um trabalho voluntário, era uma estudante fingindo ser gente grande. Senti falta de ser mais útil. De ter aquela estafante rotina de que tantas vezes reclamei. Tudo bem, talvez eu sinta falta do congestionamento porque nunca tive carro, mas aprendi mais uma lição: rotina, trabalho e cansaço fazem bem à alma, fazem parte do pacote. E quer coisa melhor do que falar disso bem no aniversário de São Paulo, um dos maiores exemplos de vida louca e cidade grande? Não adianta, sou mesmo apaixonada pela selva de pedras!


Sem culpa

Todo mundo pode sofrer por causa de um dia ruim. Todos temos o direito de, por um diazinho que seja, reclamar da vida, achar que nada dá certo e que tudo está contra nós.

Não, esse não é um post negativo. É apenas para dizer que está tudo bem se de repente você se sentir incapaz ou impotente de vez em quando. Não faz mal. Vai passar.

O universo não vai conspirar contra você por causa de um dia ruim. Acontece até com o mais bem pago palestrante motivacional.

Têm dias que as coisas simplesmente não acontecem como gostaríamos. É o despertador que não funciona, a topada no pé da cama, a pasta de dente na gravata, o café que cai na camisa branca, o trânsito parado, e pior, tudo ao mesmo tempo!

Às vezes aquela tão esperada resposta é negativa, aquele jantar romântico é desmarcado, o projeto não decola. E aí vem a cobrança: “preciso pensar positivo, não posso me abalar por causa disso, atitude!”

Nãããão! Eu posso sim me abalar. Posso sim chorar e gritar “ó vida, ó céus, ó azar!”

Isso mesmo, porque é muito difícil manter o alto astral o tempo todo quando as coisas dão errado. Quando coisas ruins acontecem, ou quando as coisas boas que esperávamos não vêm, elas trazem sentimentos de frustração. Quando estamos em “má fase”, sozinhos ou passando por grandes mudanças, alguns dias são mais cinzas que outros.

Tudo bem. Pode chorar, pode se sentir depressivo, se for só por um dia. O sentimento de culpa por ter se entregado à tristeza só piora as coisas.

O que não vale é se apegar ao sofrimento, viciar em lamúrias e fazer disso uma rotina.

Mas um dia ruim, é seu direito! E é meu direito também!


Livre?

Essa semana li um artigo instigante sobre liberdade. Questionava que liberdade é essa que nos permite apenas escolher o bem. Fiquei pensando sobre o quanto as pessoas anseiam por liberdade e quando ela chega, não sabem o que fazer com ela.

Mas o que é liberdade? Para um adolescente é um fim de semana em casa sem os pais. Para uma criança é escolher sozinha qual roupa vai vestir. Para um operário pode ser escolher o horário em que vai trabalhar. Para o namorado liberdade é tomar uma cerveja com os amigos sem ninguém pegando no pé. Para a mulher é ser independente financeira e emocionalmente. Para um casal de velhinhos liberdade é ir até a padaria sem precisar da ajuda de ninguém.

Aquele conceito da estrada e dos cabelos ao vento não vale para todos. É apenas mais uma construção publicitária.

Porque a definição de liberdade muda. Antes de lutar por ela e fazer nossas próprias escolhas precisamos definir o que é liberdade para nós mesmos.

Pelo menos para mim, esse conceito já mudou tanto que é difícil dizer se eu realmente já fui livre um dia.

Hoje, a minha definição de liberdade passa pelo perfeccionismo e pela autocobrança. Serei livre quando aprender a não exigir tanto de mim mesma.


Observações de inverno

-O frio dói. Principalmente nos pés. Pés muito gelados doem muito.

-É possível perder cerca de dois pares de luvas por semana.

-A melhor maneira de usar cachecol é enrolar ele todinho no pescoço como se você fosse uma múmia.

-Sol não quer dizer que está fazendo menos frio. 

-O vento pode transformar um inofensivo guarda-chuva em uma terrível ameaça.

-Um bom casaco impermeável é importantíssimo.

-Mesmo um bom casaco impermeável pode perder seu principal predicado depois de algumas horas de chuva (isso quando eu já perdi a luta contra o ameaçador guarda-chuva).

-Cachecóis, polainas, lenços, gorros e chapéus não servem para compor o visual, servem para esquentar.

-Calçar dois pares de meias ao mesmo tempo aquece muito mais do que apenas um.

-Não me interessa se o capuz do casaco vai acabar com meu cabelo, desde que me aqueça.

-Comida me faz esquecer o frio, principalmente quando é pesada e bem calórica.

-Vinho, cerveja, tequila e uísque também esquentam.

-Sim, frio dá preguiça.

-Meu melhor amigo é o cobertor elétrico.

-Apesar de tudo, eu gosto do frio.


Paciência

A paciência! Ah… a paciência! Será que existe algum santo responsável por distribuir paciência? Alguém para quem possamos pedir essa virtude em abundância? Porque na maioria das vezes tudo o que precisamos para viver feliz é um pouco mais de paciência.

Esperar é tão difícil! Esperar o ônibus que não vem, a água que não ferve, o ponto final que demora tanto, o grande amor que não aparece… Esperar, esperar, esperar…

E têm vezes que a única coisa que podemos fazer é justamente esperar. Porque não existe o nosso tempo. Nada fica pronto no momento em que desejamos. Talvez a espera faça parte do pacote. Vai ver, sem esperar não tem graça.

E eu continuo pedindo paciência. Porque a minha parece sempre insuficiente.

Devia ter aproveitado o Natal e deixado a meia na lareira, como os irlandeses fazem. Quem sabe Papai Noel não deixava uns dois quilos de paciência pra mim?

Agora, só no próximo Natal!