Pontuando…

Depois de três meses de Dublin, já tenho uma lista das coisas a que me acostumei facilmente, das coisas que sinto falta, daquelas que não fazem diferença, enfim… Passado o primeiro trimestre a vida começa a ficar mais “normal”. Não preciso dizer para mim mesma : “ei, você está na Irlanda” todos os dias. O supermercado não é mais assustador, pelo contrário, virou um parque de diversões! O inglês já flui com mais naturalidade, embora os tropeços na gramática ainda sejam grandes. Até mesmo a mão inglesa parece familiar, os motoristas não estão mais “do lado errado”.

O frio faz parte da rotina. E com o fim do inverno cada vez mais perto, surpreendo-me pensando, admirada: “Uau! Quatro e meia da tarde e ainda é dia!”

Muito mais adaptada, já sei direitinho o que eu gosto e o que eu não gosto por aqui. Claro que mudo de ideia várias vezes na semana, mas é esse o objetivo: experimentar, gostar, desgostar, amar, odiar, viver!

Não consigo mais me imaginar sem:

*Máquina de lavar louças! Sim, eu sei que ela existe no Brasil, mas aqui é muito mais comum e é maravilhosa! Talvez encareça um pouco a conta de energia elétrica, mas terminar o jantar, colocar tudo lá dentro e esquecer é muito bom!

*Kettle – a tradução literal é chaleira, mas vale para os elétricos também! É uma espécie de jarra, você coloca água, aperta o botão e em menos de 50 segundos a água está quente. Muito prático para os irlandeses que tomam chá o tempo todo (hábito que adquiri logo nos primeiros dias) e dá para esquentar água para o arroz e para o macarrão, por exemplo, ganhando preciosos minutos na cozinha.

*Chá – chá de camomila, chá preto com leite, chá de limão com gengibre, chá verde com maçã e pera, chá com laranja e manga, a variedade é enorme! Eu já gostava antes, agora, sou quase viciada!

*Secadora de roupas com ar quente – ok, não dá para usar sempre, porque gasta muita energia, mas de vez em quando é uma maravilha! E serve também para tirar o cheiro de fumaça ou de balada daquele casaco limpíssimo que a gente usou só uma vez! Basta deixar 10 minutos lá dentro, com um lencinho perfumado do supermercado, próprio para isso.

*Queijo brie – nem preciso comentar!

*Coisas práticas e gostosas de comer – sim, comida pronta (ou quase pronta) pode ser muito boa por aqui.

*Reduced do Tesco – é uma sessão de um dos supermercados mais populares daqui, com produtos pertinho da data de vencimento por menos da metade do preço.

*Cobertor elétrico – para os dias mais frios é essencial, e pode ser útil em Curitiba também, onde as temperaturas beiram o negativo facinho, facinho no inverno.

*Viajar barato – essa é básica para qualquer brasileiro que more na Europa. Hoje conheci uma brasileira que foi para Paris pagando nove, NOVE euros pela passagem de avião!

Não vou sentir falta:

*Do subemprego.

*Do vento.

Morro de saudades:

*Minha família

*Meus amigos

*A luz do sol (que fique claro: a luz, não o calor!)


Subempregos x Super-heróis

Não posso mais chamar os empregos que intercambistas como eu conseguem no exterior de subempregos. Nos dicionários de português a palavra quer dizer “emprego não qualificado, com remuneração baixa; abaixo da qualificação do empregado”. O prefixo sub remete a algo inferior, abaixo da expectativa. Pois descobri que não é bem assim.

Dizem que para trabalhar como caixa de supermercado, atendente de fast-food, faxineiro, assistente de cozinha, garçom e outras funções da mesma linha, basta disposição. Discordo.

Sempre achei repugnante ouvir pessoas contando que não aguentaram limpar chão e voltaram para o Brasil. Imaginei que eram apenas playboys da classe alta que nunca usaram uma vassoura na vida.

Ledo engano. Preconceito da minha parte, admito.

Descobri que para ter um subemprego na Irlanda e ser feliz com ele é preciso muito mais do  que força de vontade. É preciso em primeiro lugar muita saúde: importante para suportar dez horas sem pausa, sem almoço, sem lanche ou descanso. É preciso pés e pernas fortes e um bom tênis, pois as dez horas são em pé, andando e até correndo. É preciso força, mesmo para as mulheres: carregar peso e esfregar o chão, muitas vezes imensamente gorduroso, exigem energia e músculos em forma.

Mas ainda mais importante que a capacidade física são as competências emocionais. Autocontrole e equilíbrio são necessários para suportar a ignorância e prepotência dos gerentes, que por outro lado seguem as ordens do patrão mercenário. A extenuante rotina gera estresse e um cansaço quase insuportável, o que torna difícil ouvir as reclamações e os comentários insensíveis do chefe.

No meu caso, caixa de uma rede de fast food, também preciso ter excelentes habilidades teatrais para largar a vassoura imediatamente, correr para o balcão e estampar no rosto o mais largo sorriso que encontrar. É preciso dissimular, literalmente, para cumprir o que seria minha única (ou principal) função: atender os clientes.

Em meio a tantas habilidades exigidas de um empregado, como é possível dizer que isso é um subemprego? Trata-se na verdade de um super emprego. Super quer dizer superior, excesso. E não consigo ver nada de inferior em um emprego como esse. O que vem a cabeça quando pensamos em subempregos é que os candidatos não precisam de qualificação, são trabalhos que qualquer um pode fazer. Mas os subempregos por aqui, especialmente na área de alimentação e limpeza, contratam, essencialmente, super-heróis.

Então cada vez que você for a um fast food, procure não se aborrecer com o atendente se ele errar seu pedido. Lembre-se que na sua frente pode estar um super-herói de verdade. E super-heróis são sempre muito ocupados e podem se confundir de vez em quando!


E de repente… 30.

“Quando você chega aos trinta, pensa que foi rápido demais. Mas os 40 vão chegar antes que você perceba, e há quem diga que até os 50 você mal tem tempo de piscar os olhos. Por isso não perca seu tempo chorando, brigando, discutindo. Acredite: a vida passa como um sopro.”

Esse foi o conselho que recebi de um brasileiro de 38 anos que conheci aqui. Percebi que a cada vez que ouço esse tipo de observação minha reflexão é diferente. Não, não estou em crise, até porque minha crise dos 30 começou aos 28 e acabou algumas semanas atrás! Foi só uma reflexão mesmo.

Levando em conta que a expectativa média de vida de um brasileiros gira hoje em torno de 73 anos, 30 é quase metade disso. É metade da vida. Metade do tempo que eu tinha nesse plano já foi. Bye, bye. Já era. Não volta mais. O que eu fiz dessa metade não importa , o que interessa agora é o que eu vou fazer com a próxima metade.

Aos 20, eu via os 30 como um marco, algo distante, o ponto alto. O momento da realização plena, do sucesso profissional, do sucesso material. O ápice da vida. Quanto mais a data se aproximava, mais ela ganhava contornos assustadores. E se não for assim? E se não for o ponto máximo, o auge, o sucesso?

E quando os 30 finalmente chegaram, percebi que o significado de auge e sucesso mudaram. Muitos dos conceitos (e preconceitos) que se desenham aos 20, se desfazem mais tarde. Dão lugar a novas aspirações e a novos ideais, mais maduros e também mais independentes de julgamentos externos.

Aos 30 passei a apreciar muito mais o prazer da minha própria companhia. Estou ficando cada vez mais íntima de mim mesma. Refiro-me àquele tipo de intimidade que permite que duas pessoas fiquem por um longo período em silêncio, sem que isso incomode ou se torne constrangedor.

Aos 30 eu troco a noite de festa por um bom livro, perfeitamente à vontade com a decisão.

Aos 30 curto a vida voltando do trabalho numa noite qualquer e percebendo que o céu gelado está cheio de estrelas, e a lua nova brilha como nunca.

Aos 30 sei me olhar no espelho e gostar do que vejo, mesmo sem maquiagem.

Aos 30 sinto que vale mais a pena um ou dois amigos de verdade, do que dúzias de colegas.

Aos 30 aprendo todos os dias a viver o presente. Agora sinto, ás vezes pesadamente, que não dá para viver de passado, nem se alimentar sonhando com o futuro.

O aprendizado é infinito, não para nunca. Esta é, afinal, a essência do jogo: evoluir sempre.

Aos 30 é importante definir o que é evolução para VOCÊ, não para os outros. Buscar e encontrar qual é a melhor forma de aproveitar a SUA vida, de viver intensamente o SEU momento.

Porque outra coisa que estou aprendendo é que além de curta, a vida é MINHA e só EU posso saber o que é melhor para mim.