Caminho de Dublin

A alusão ao Caminho de Santiago não deixa de ser espiritual, mas não é religiosa. Religião deixou de ser prioridade para mim há muito tempo. Falo da religião inventada pelos homens, cheia de regras e perguntas sem repostas. Porque a fé em Deus, essa eu conservo, à minha maneira.

A analogia ao roteiro espanhol que atrai milhares de peregrinos foi sugestão de uma grande amiga ao ouvir minhas novas descobertas. O “quem sou eu?” nos acompanha desde as primeiras redações escolares, no primário. Muita gente nunca se preocupou em responder essa pergunta. Outros parecem já nascer sabendo. Também tem os que descobrem tarde demais e ainda os que deixam essa vida sem nunca descobrir. Para minha sorte sou uma das felizardas. Descobri a tempo. Nem cedo, nem tarde demais. Na hora certa.

Até então, eu seguia despercebida do quanto me esforçava para alcançar algo que não sabia se realmente eu queria. Esforço em vão? Não, apenas parte do aprendizado.

Depois do “quem sou eu?” vem outra indagação, que igualmente já tirou-me o sono muitas vezes: “o que eu quero?”. Sucesso profissional. Sucesso pessoal. Uma boa casa. Um bom carro. Um bom emprego. Engano seu. Ou devo dizer, engano meu? Isso são coisas que esperam que eu queira. Que esperam que eu faça. Por muito tempo acreditei fielmente que essa era condição sine qua non para ser feliz. E desejei o tal sucesso do fundo do coração. Formar minha família margarina era a última parte do plano “bem sucedida na vida”.

O mais engraçado é que descobri que a pressão não vinha de fora. Não vinha da família, dos amigos ou da sociedade. Vinha de dentro. Vinha de conceitos tortos e adulterados que em algum momento da vida, de alguma forma, eu adquirir e abracei como valores. Valores que, hoje eu sei, não eram meus.

A liberdade de responder às perguntas e descobrir a nossa verdade não tem preço. É uma sensação que não encontra sinônimo ou sentimento correspondente. Talvez libertação. Sim, libertação é uma boa palavra. Libertei-me da prisão material em que vivia para sentir melhor o gosto que tem a vida.

Sim, eu ainda desejo sucesso. Ainda ambiciono ser bem sucedida. Só que o meu conceito de sucesso mudou. Não passa mais pela casa, o carro, nem pela família margarina. O sucesso agora é mais abstrato e ao mesmo tempo muito mais simples. Não é mais fácil nem difícil. Apenas diferente. E sem pressão.

Escrevi há algum tempo sobre liberdade. Escrevi que seria livre quando passasse a não exigir tanto de mim mesma. Acho que eu estava, era exigindo as coisas erradas!