Cíclica

Sempre que surge um momento de decisão, vem aquela lista de prós e contras. De certo e errado. De melhor ou pior.

E as decisões não param. Depois de uma escolha difícil, logo logo chegará outra muito mais importante. E outro ciclo se fecha. E outro se abre.

A natureza está aí, ensinando que a vida é feita de ciclos. Mas nós sempre queremos sair antes do fim ou ficar depois que acabou.

Temos essa mania de ser racionais, de enumerar motivos para sair ou para ficar.

Só que os ciclos não são como matemática. Nem são racionais.

A melhor maneira de saber qual a decisão correta é sentir. É prestar atenção nas nossas vontades e esquecer um pouco a lógica do material, do consumo e do capital.

Apenas o coração sabe se o ciclo já se fechou. O desafio agora é ouvi-lo…

Tento me ver de fora, tento me ver de cima. Além do céu, muito além. A perspectiva de universo facilita as decisões que achamos tão difíceis.

Quando olho do alto percebo que sou apenas um pedacinho de energia em toda uma existência. Que muitas vidas já foram e muitas outras virão. Que isso tudo é tão passageiro e tão rápido… E que essa decisão nem é tão importante como eu imaginava. É apenas mais um passo.

E assim fica muito mais fácil sentir se o ciclo ainda continua. E sentindo, a certeza da decisão é maior.


Aprender

Então eu aprendo. Aprendo a apreciar as manhãs chuvosas.

Aprendo a rir de mim mesma quando o vento quebra o terceiro guarda-chuva da semana.

Quase aprendo a gostar da melodia que tem o sotaque irlandês.

Aprendo a fazer piada sobre o verão deles, que agora também é meu.

Aprendo a sair correndo da cama pela manhã, quando o sol aparece lá fora.

Aprendo que sol não é todo dia, é preciso aproveitar.

Aprendo a gostar do feijão meio adocicado, com molho de tomate, que essa semana foi meu café da manhã.

Aprendo que sempre é tempo para uma xícara de chá. Com leite.

Aprendo tanto e todo o tempo. Mais e mais. Será um ano suficiente para tudo o que ainda sei que posso aprender?

Aprendo que não é possível prever o clima e às vezes, nem seguir o planejamento.


Un cuento chino

É incrível como a sala de aula tem um efeito rejuvenescedor. Ir todos os dias à escola e trazer lição de casa faz a gente se sentir uma criancinha no primário… Aquela época em que a única responsabilidade era passar de ano.
Meu curso de inglês acabou na semana passada. Acho que passei de ano, porque me deram um certificado, bem bonito até! Não diz que eu já sei falar inglês, mas diz que estudei por dezenas de semanas…

Só que não é apenas pelo efeito fonte da juventude que vou sentir saudade da escola. Estudar inglês no exterior tem uma espetacular vantagem: gente do mundo todo vem estudar com você.
A diversidade cultural a que eu tive acesso nestes seis meses de curso me ensinou coisas que em livros eu jamais aprenderia com tanta eficácia!
Primeiro foi a barreira da língua. Brasileiros, coreanos, japoneses, chineses, árabes, venezuelanos, italianos, espanhóis e até um cazaquistanês descobriram comigo como o idioma pode se transformar de um obstáculo em uma ponte com apenas alguns sorrisos.
Depois veio a cultura… Ah, a cultura! Palavrinha pequena para exprimir as diferenças colossais que experimentei…
Algumas impressões reforçam estereótipos, outras fazem-me perceber que não sei absolutamente nada sobre o mundo!

Conheci uma sul-coreana cujo sonho é visitar a Coreia da Norte…
Outro coreano contou como as saunas públicas são populares por lá…
A chinesa gostaria de ter irmãos, porque o governo chinês não permite que os pais tenham mais de um filho (o governo chinês não permite várias coisas por lá…).
No Japão, descobri que a comemoração do dia dos namorados acontece em duas etapas: primeiro as mulheres dão o presente e um mês depois, os homens é que são chamados a galantear.
Aliás, falando em japoneses, foram as pessoas mais doces, educadas e generosas que conheci!
Outra grande surpresa foi visualizar de perto os hábitos dos muçulmanos, especialmente os da Arábia Saudita. Ao contrário do que imaginamos, os véus usados pelas mulheres não são nem de longe símbolo de opressão para elas. A ala feminina árabe tem muito mais com o que se preocupar do que arrumar os cabelos sob os tecidos coloridos e estampados. Elas não podem dirigir e ainda lutam contra a predominância do pensamento machista. Mesmo assim já conquistaram muita coisa. Casamentos arranjados não existem mais e elas podem estudar tanto quanto os homens, todos subsidiados (e muito bem subsidiados) pelo governo.

Ainda tenho mais cinco meses para vivenciar diferenças culturais, agora, fora da escola. A comunicação está mais simples e o inglês me aproxima das pessoas que, de alguma forma, fazer parte da minha vida aqui.
O nome do post? É uma referência e uma recomendação. Um filme argentino belíssimo, construído em cima de dois personagens que não falam a mesma língua. Uma comédia inteligente e sensível, que mostra como a língua pode ser importante, mas não é a única forma de se estabelecer uma relação humana. E que me deixou louca de vontade de aprender espanhol!