Elegante e fétida Paris

Tenho lido muitos blogs de viagens. Se há uma vontade que continua latente é a de viajar. Só consegui sossegar durante esse tempo todo de Irlanda porque conheci algumas cidades antes de aterrissar na Ilha Esmeralda.

E por incrível que pareça escrevi apenas um post sobre a incrível viagem que antecedeu o intercâmbio. Para tentar apaziguar esse desejo de quero mais resolvi escrever sobre Paris.
Sim, a Paris que tantos amam não foi a cidade de que mais gostei. Foi parada obrigatória na escolha do roteiro pelo simples fato de ser Paris. E só por isso já vale a pena.

Cidade de contrastes, muitos talvez parecidos com os das grandes metrópoles brasileiras. A primeira impressão da cidade luz logo contrastou com o glamour dos filmes. O luxo contra a sujeira e o mau cheiro dos subúrbios.

Como eu fui parar no subúrbio? Simples. As estações de trem próximas ao aeroporto estavam em manutenção, o que nos levou a um ônibus, que nos levou três estações à frente. Com as enormes malas não tivemos outra chance se não pegar o fétido elevador que levava ao subsolo, onde poderíamos atravessar para a plataforma correta.

Foi com esse cheiro de vômito e miséria que chegamos a Gare du Nord. O odor instalado nas narinas não facilitou a relação com a Parrí dos sonhos, ao menos, não na chegada.

Depois de ficar em hotéis baratíssimos e maravilhosos na Itália, o hotel parisiense, embora pertinho do metrô, não se mostrou lá muito aconchegante.

Na entrada do restaurante arriscamos um “s’il vous plaît” e finalmente uma boa surpresa: a famosa antipatia dos franceses ainda era nossa desconhecida! O gerente do restaurante coloca música brasileira em nossa homenagem. E não era Michel Teló, era Marisa Monte, uma casual frequentadora do lugar. Ponto para os franceses.

Li em alguns dos muitos blogs de viagens, que para quebrar o gelo na França, basta arriscar um Bonjour. O vocabulário de meia dúzia de palavras em francês serviu para este propósito durante toda a viagem.

No dia seguinte, uma (irritante) simpática venezuelana hospedada no hotel resolve nos acompanhar no mais clássico dos passeios turísticos parisienses: a torre. Com sua amigável presença, a chateação de esperar duas horas na fila para subir no monumento ficou ainda mais clássica. Mesmo assim a vista compensa.

Outro clássico que valeu a visita foi o Louvre. Não pela Monalisa, mas pelo conjunto da obra.

O passeio pela Champs-Élysées foi o mais revelador e ao mesmo tempo conturbador de todos. Deixou em mim a impressão de uma Paris de mentira. A Paris locação de Hollywood. Um charme que só pode ser apreciado com muito dinheiro. Muito mesmo. Um consumismo desnecessário que insiste em destruir a imagem da elegância pura e simples.

A torre durante a noite até valeu o susto de se perder no metrô. Aliás, apesar de malcheiroso, o metrô parisiense é indescritivelmente pontual e alcança a cidade toda.

A maior lição de Paris foi não se prender ao turismo de massa. Atrações turísticas “importantes” demais tendem a esconder o que a cidade tem de melhor. Como o famoso café da Amélie Poulain. O almoço com miúdos de cabra (ou qualquer animal semelhante) era intraduzível tanto do francês, quanto do inglês. A orientação do garçom de que o prato era muito, muito especial não foi suficiente para alertar que a carne exalava o mesmo cheiro da primeira estação de trem. Um simples crepe de limão em um café da esquina foi o ponto alto da gastronomia parisiense para nós.

Claro que dois dias são pouco para uma cidade de 12 milhões de habitantes e milhares de anos de história.

Por isso ainda pretendo dar mais uma chance a Paris. Outra visita, outros passeios.

Quem sabe ignorando as duas horas de fila para subir na torre, tenho mais tempo para conhecer a Paris que não está no Louvre ou no Arco do Triunfo, a Paris de verdade. A Paris dos parisienses, que ao contrário da expectativa, se revelaram simpáticos e acolhedores.

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