Tolerei

Aprendi a ser uma pessoa tolerante na marra. Na escola sempre fui a primeira da fila. Ser a primeira da fila quer dizer: baixinha, magrinha, tão frágil que balança até com uma brisa.

Por isso nunca me envolvi em brigas. Brigas de criança mesmo. Tinha muito, mas muito medo de apanhar.

Também sempre fui sensível. Se levantassem a voz para mim eu começava a chorar no mesmo instante (algo que não mudou muito de lá para cá!).

O resultado foi que eu passei a ignorar solenemente as provocações ou qualquer situação que pudesse provocar uma discussão. Não queria apanhar, muito menos levar bronca da professora.

Trinta anos depois aquilo que eu acreditava ser uma fraqueza, um traço falho da minha personalidade, acabou se revelando uma grande qualidade. Sim, agradeço pela minha pouca altura e covardia alguns anos atrás, pois foram elas que moldaram em mim um perfil mais tolerante e menos encrenqueiro.

Trabalhando do outro lado do balcão de um fast food exercito ainda mais essa tolerância. Não como atendimento ao cliente, mas como observadora e como a própria cliente. Como é bom trabalhar quando quem é servido sorri, olha nos olhos e agradece o serviço! E como é triste ver uma pessoa sendo grosseira com um desconhecido apenas porque ele pôs gelo no refrigerante! Confesso que depois de um ano como caixa no KFC estou revendo meu perfil tolerante enquanto consumidora também. Afinal, que culpa tem o atendente dos problemas da loja?

Hoje ninguém deixa barato. Pega mal. Até ser gentil pega mal. Quanta briga desnecessária. Estresse e desgaste apenas para manter a máxima “não levo desaforo para casa”. Quer saber? Eu também não levo. Eu jogo fora. Livro-me logo do danado antes de entrar pela próxima porta.

Pois se você acha que ser flexível é ser covarde ou que tolerar um erro no restaurante é ser banana, sinto muito meu amigo, mas você provavelmente vai morrer de câncer. E muito antes do que eu.

zangado

Essa semana, no Guarujá, uma briga num restaurante resultou em uma morte. O motivo? A conta estava supostamente sete reais mais cara do que deveria ser.

Passagens assim lembram-me uma mensagem que circulava tempos atrás via e-mail (antes dos spams encontrarem o facebook). O título do e-mail era: “a porta do lado”. Ele falava sobre algo comum: quando alguém estaciona o carro na garagem do prédio muito perto do seu carro e você fica sem espaço para entrar. Algumas pessoas entram pela porta do passageiro, ligam o carro e vão embora. Outras esbravejam, chamam o porteiro, chamam o síndico, estragam o dia de todo mundo por causa do desavisado que estacionou mal.

É um exemplo perfeito de como a tolerância pode fazer bem ao coração. No fim do dia, você não vai nem lembrar o quanto foi desconfortável entrar no carro pelo outro lado e pular o freio de mão. Já o cara que chamou o síndico…

Se você não era o primeiro da fila e ainda era bom de briga na escola, provavelmente exercitar a tolerância vai ser um pouquinho mais difícil do que é para mim. Mesmo assim vale a pena. Eu aconselho. Se puder tentar a gentileza também seria ótimo.

Ok, ok, ser tolerante já é um grande desafio, talvez ser gentil seja demais por enquanto, mas um dia a gente chega lá!

Anúncios

One Comment on “Tolerei”

  1. karol disse:

    Parabéns Elaine, ótimo post. Acho que a tolerância é uma virtude muito importante, mas infelizmente bem rara hoje em dia. Ela poderia evitar muitas tragédias e brigas tolas que resultam em mortes, como no caso do restaurante.


Comente aqui

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s