Síndrome do regresso

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Dois meses e sinto saudades.

Tive que escrever, depois de ler os quase 30 comentários de desconhecidos no meu último e abandonado post de abandono. E são todos tão apaixonados pela Irlanda que nem são mais desconhecidos pra mim. Parecem amigos íntimos, agora que sou tão incompreendida.

Lembro-me até hoje do minuto em que deixei o aeroporto. Dos instantes rápidos, quando o avião se afastou da Ilha e eu tentava identificar, de cima, o Liffey.

Lembro-me de meus amigos da Hungria, das Ilhas Maurício, da Polônia, que me acompanharam até o aeroporto.

As lágrimas eram de tristeza sim. Porque não veria mais aquelas pessoas, não viveria mais aquela vida, não andaria mais por aquela cidade. Dublin.

Então foram dias de Espanha e dias em um cruzeiro.

Ao desembarcar do navio, no porto de Santos, ouvi a funcionária estrangeira dizer: “thank you Ilein”. Seria a última vez que alguém me chamaria de Ilein, em vez de Elaine.

Ok, sou dramática, eu sei. Mas doeu ouvir meu nome daquele jeito. Porque eu sabia que não seria fácil transformar Ilein e Elaine em uma pessoa só.

E não é. Se você está voltando, prepare-se porque a luta para conservar tudo o que você viveu e aprendeu fora não é simples. É continua. E precisa, necessariamente, acontecer ao som de sertanejos universitários e funks, ambos com letras duvidosas, tocando em todos os lugares – inclusive os públicos.

Aliás, um lembrete: musicalmente falando, é importante se preparar para o Brasil. Você vai ouvir bastante esse verbo: prepara.

Sinto falta dos amigos que fiz lá, brasileiros e estrangeiros. Pensei em Dublin todos os dias desde que pisei aqui. Pensei com carinho, não com tristeza ou com saudades.

Com orgulho, porque a Irlanda me deu uma base de comparação e agora posso perceber aqui no Brasil, coisas boas e ruins, que antes nem passavam pela minha cabeça.

Tenho certeza de que a saudade que eu sentia da família e dos amigos no Brasil é o alicerce que sustenta essa mudança.

Desde que cheguei, tive dias lindos e dias tristes. Dias em que estar com as pessoas que amo era a única coisa importante. E dias em que a situação de desempregada e o choque cultural de perceber o quanto nosso país está atrasado, me causaram depressão.

Ainda não sei se vou me adaptar. Não sei se a sensação de pertencer está relacionada com a minha família ou com o meu país.
Não me sinto patriota. Minha felicidade é diretamente ligada às pessoas que tenho aqui, não ao Brasil.

Durante as primeiras seis semanas do meu retorno, ignorei os telejornais. A primeira notícia que eu assisti foi a briga das torcidas do Atlético e do Vasco, em Joinville. Ainda não tinha estômago pra aquilo, então decidi, meio que inconscientemente, fechar os olhos.

E fechei, enquanto pude.

Matei a saudade dos amigos, viajei, curti a família até a exaustão!

Tomei muito suco de laranja natural, comi muita coxinha e brigadeiro.

Até elogiei o transporte público. Pontual e praticamente vazio às dez da manhã ou às três da tarde.

Aí as férias acabaram.

Arrumei um emprego temporário e a verdade caiu sobre mim como uma bomba.

Sinto-me como uma mulher traída. A última a saber. Não me conformo por não ter enxergado tudo isso antes.

Jornalista que sou, agora repórter de um telejornal diário, preciso assistir. Assistir e reportar a corrupção, a falta de respeito ao ser humano, a violência sem tamanho da qual fiquei distante durante dois anos.

Depois de aprender a viver sem medo e perceber que uma realidade melhor é possível, é difícil relembrar que aqui embaixo as leis são diferentes.

É difícil acreditar que o Brasil transformou-se nisso. Mortes violentas, tiros, acidentes, armas de fogo, tudo isso são banalidades às quais os brasileiros se acostumaram.

Já eu, ainda não me acostumei. E nem sei se vou.

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