Ame-o ou deixe-o!

Policeman escorts Brazilian Army in Mare slums complex in Rio de Janeiro

Policeman escorts Brazilian Army in Mare slums complex in Rio de Janeiro. – Reportagem publicada no jornal britânico The Guardian.

Já faz tempo que tento escrever aqui um texto mais positivo sobre minha readaptação. Vinha levantando argumentos há algum tempo. Entre eles a comparação, tão condenada quando visa o lado negativo. Comparando o período que levei para me adaptar à Irlanda, ao clima, ao idioma e às pessoas, ainda estou no lucro. Todos os que voltam do exterior reclamam e reclamam, como eu. Só que ninguém desembarcou em terras estrangeiras amando a nova casa de graça. Eu levei um pouco mais de cinco meses para gostar do meu novo lar. Tempos difíceis (registrados aqui e aqui), onde a excitação de ver tanta coisa nova e diferente misturava-se ao medo de reaprender a fazer coisas simples e à imensa saudade da família. E ainda tinha o frio, claro. Olhando assim as temperaturas curitibanas não deixam muito a desejar!

Então pra que o desespero? Eu pensei. Dizem os especialistas que você pode levar até seis meses para se adaptar à vida em um país diferente, mas esse processo leva quase dois anos quando você retorna à sua terra natal.

Decidi mudar de atitude, limar da minha vida as comparações e evitar ao máximo a identificação instantânea que sentia ao encontrar alguém que morou fora e está apto a compartilhar das minhas lamentações, mesmo que pela internet.

Posso dizer que está funcionando. A vontade de chorar e sair correndo para embarcar no primeiro voo quando assisto ao jornal diminuiu. Aliás, diminuiu bastante quando eu parei para pesar o preço de um taxi até o aeroporto. E diminui um pouco mais quando pesquiso os preços das passagens. E um tantinho mais quando eu lembro que o único visto de residência permanente que me pertence é o brasileiro.

Chorar não vai me tirar nem do sofá da sala, certo? Essa mudança de atitude também pode me levar mais perto de arrumar um emprego. Como? Aceitando que a realidade brasileira, especialmente a regional, não vai me pagar o salário que mereço. Aí fui percebendo que repetir aqui no Brasil o estilo de vida que eu tinha na Irlanda é nada mais que uma utopia. Não funciona. Brasil não é Europa. Brasil é Brasil. É aqui que eu vivo agora. É parecido com aquela briga de adolescente, quando os pais dizem: “enquanto você viver sob o meu teto, vai ter que obedecer às minhas regras”.

Tudo o que aprendi e vivi em dois anos de experiências intensas e viagens por onze países não vai embora. Fica guardado aqui dentro de mim. O desapego, a gentileza, o não ao consumismo fútil, a mente aberta, o conceito de trabalhar para viver e não viver para trabalhar. Guardo também a lição de que não existe certo ou errado, de que os pensamentos são divergentes, assim como as culturas, os pontos de vista não batem sempre e tudo isso é bom.  Alguns desses aprendizados ficam em standby. Outros eu vou liberando aos pouquinhos, incorporando-os no meu dia a dia de uma forma sutil, pra que não assustem ninguém.

E assim vou me readaptando. Talvez na próxima vez em que o governo use a Petrobrás para uma negociação pervertida e absolutamente imoral no exterior, eu consiga assistir à notícia sem sentir náuseas. Talvez me acostume com o aumento no já elevado número de assassinatos. Ou com 50 roubos de carro em 24 horas.  Confesso que vai ser mesmo difícil me acostumar a não usar minissaia ou vestido decotado, já que 65% dos brasileiros acreditam que mulher com roupa curta merece ser atacada ou estuprada, segundo uma pesquisa recente do IPEA.

A essa altura você deve estar revoltado imaginando como eu posso me conformar com tudo isso. Não, não estou conformada. O problema é que eu não tenho mais aquela esperança, aquela faísca da vontade de mudar o mundo. E preciso de dinheiro pra viver. Precisamos desse papel para dar asas aos nossos projetos e então lutar por algo concreto. O agora está passando e não volta mais. Cada segundo que se perde imaginando em vez de vivendo é irrecuperável.

Admiro muito pessoas que decidiram, depois de viver no exterior, voltar ao Brasil com a missão de torna-lo um país melhor, de contribuir para que a nossa realidade mude. E dessa vez não estou sendo irônica, admiro mesmo! Tenho até uma pontinha de inveja dessas pessoas, como o Lucas, que comentou no meu último post exatamente isso.

Infelizmente eu não encontrei em mim essa determinação de mudar o Brasil. Readapto-me ao possível e planejo minha vida para em dois ou três anos responder definitivamente ao slogan de um tempo sombrio da nossa história: “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Até agora estou mais inclinada a optar pela segunda sugestão.

 

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