Sabático

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Já faz mais de um ano que voltei da experiência que mudou minha vida para sempre: um intercâmbio.

Dois anos imersa em uma cultura diferente. Dois anos reaprendendo a viver. Dois anos vivendo em imenso desapego. Desapego de pessoas, de bens materiais, de julgamentos. Dois anos conhecendo países diferentes, pessoas diferentes, músicas diferentes, línguas diferentes.

Foi algo como um período sabático, coisa que está na moda ultimamente. Aliás, a definição de sabático no Aurélio me confundiu um pouco. Pesquise, caso você também queira ficar confuso.

Posso dizer que este primeiro ano foi difícil. Tem a tal síndrome do regresso, de que tanto se fala, e uma síndrome ainda mais danosa: a da sobrevivência. Este foi um ano de buscar uma fonte de renda baseada no que eu sei fazer. Foi um ano de me readaptar à vida no Brasil, diferente da vida de estudante/imigrante na Europa. Foi um ano de entender como eu poderia transformar aquela Ilein refeita lá fora em algo útil aqui.

Hoje também posso dizer que estou adaptada e quase faço parte da vida normal. Já tenho rotina, horários (na medida do possível para uma jornalista), salário e quase tenho vida social.

Esta é a Elaine que ocupa o seu lugar na sociedade. Mas a Ilein (como eu era chamada na Irlanda), aquela que viveu outra realidade por 24 meses, que trabalhou como atendente de lanchonete e também como jornalista, que dançou, que viajou, que experimentou, que ousou, esta outra só ocupa um lugar na minha mente.

Tenho pensado em todas essas pessoas que, insatisfeitas com a vida profissional de bater cartão, resolvem sair pelo mundo para se encontrar. Tiram um ano sabático e viajam procurando o sentido da vida fora do escritório. Dê uma olhada na internet. Sites pipocam todos os dias no meu facebook com manchetes como “paulistano viaja pela América Latina com um salário mínimo”; “casal pede demissão e resolve dar a volta ao mundo”; “mineiro viaja até o México de carona”; “publicitária vai para a China vendendo brigadeiros”; só para citar alguns.

Admiro muito todas estas pessoas, não estou criticando. Sei que é preciso coragem para viver fora do que a sociedade determina, e no fundo, acredito que ainda estou buscando esta coragem em mim mesma.

Minha dúvida é: e quando eles voltam? Quando o ano sabático termina? Sim, porque ninguém consegue passar a vida toda viajando pelo mundo de carona (ou consegue)?

Se voltando de um intercâmbio, no qual eu trabalhava, tinha uma rotina e várias coisas chatas para fazer (trabalhar em fast food não é fácil!), já foi difícil encontrar uma vida “normal”, imagina depois de conhecer o mundo todo? Será que é humanamente possível voltar às convenções sociais a que estamos aprisionados depois de conhecer a realidade de tantas outras culturas?

É incrível ler relato de profissionais das mais diversas áreas que conseguem manter o desapego de suas viagens e viver uma vida simples. Mas e daqui a 40 anos? Como estas pessoas estarão? Será que viver fora dos padrões só é possível pra quem tem condições financeiras suficientes? Explico: você PRECISA pensar no seu futuro financeiramente falando. Quando você chegar a 70 anos de idade terá uma imensa bagagem e muito orgulho de suas histórias. Mas terá que pagar aluguel? Terá renda suficiente para viver novas histórias? Terá renda suficiente para viver? Já passeis dos 30, é inevitável pensar assim…

Infelizmente, dinheiro ainda é uma coisa necessária para todos. Qualquer um que fez um curso universitário e tem uma carreira mediana pode guardar parte de seus rendimentos e em um ano poupar a quantia suficiente para viajar o mundo. Sim, a experiência é fantástica e pode te ensinar coisas que você jamais aprenderia no seu canto. Mas e depois? Como você vai voltar a viver a vida que vivia antes sem contar com sua próxima viagem? Como você vai pagar seu aluguel imaginando que aquele dinheiro poderia te levar para aquela região da Ásia ou da Amazônia que você não conseguiu visitar no seu sabático?

Vivo este dilema todos os dias depois que voltei do meu intercâmbio, arrumei um emprego e estabeleci uma rotina socialmente aceitável. Morando com meus pais, sonho com o dia em que consiga poupar o suficiente para ter meu cantinho e decorar com os ímãs de geladeira dos países os quais visitei. Então me dou conta de que preciso visitar mais lugares. E quando minhas economias começam a se acumular, não resisto. Em vez de continuar a longa caminhada da “casa própria’, como manda o figurino, começo a me imaginar subindo as montanhas de Machu Picchu, fotografando os campos de lavanda na França ou conhecendo a Amazônia Brasileira.

Talvez estas dúvidas tenham a ver com minha profissão. Vivemos uma crise mundial no jornalismo. Jornais impressos e revistas estão fechando. Televisões estão diminuindo seus quadros. A internet toma conta das fontes de informações e os profissionais da área são cada vez mais desvalorizados. Especialmente os que, como eu, não conseguem mais viver em grandes centros como São Paulo ou Rio.

Ou talvez minha confusão mental esteja ligada apenas a uma vontade sem fim de viajar mais, de conhecer mais. De viver aquele ditado que diz que o mundo é muito grande para nascer e morrer no mesmo lugar. Pode ser só a coceira de quem passou os últimos oito anos em cinco cidades diferentes e se habituou à estrada.

Vai ver seja apenas medo. Medo de buscar a liberdade outra vez e não saber o que fazer com ela.

A dúvida segue me perseguindo: é possível? É possível mesmo ser nômade? Ganhar dinheiro para viver, viajar e ter um futuro sem perrengues? Trabalhar no que se gosta? Dá para fugir daquela fórmula de sucesso regida por carreira+salário+carro+apartamento+poder?

É que eu sinto que esta fórmula não vai me fazer feliz. Mas também não quero o completo oposto. Preciso de um cantinho pra mim e perder uma hora e meia por dia em pé no ônibus está me cansando.

Este post repete muitas vezes a conjunção “mas”. Novamente segundo o Aurélio, um dos significados de “mas” é obstáculo, estorvo.

Parece que minha readaptação tem um novo e longo desafio pela frente.


Sobre o jornalismo II

O papel do jornalista na sociedade é ser o jurado que contesta os fatos, que analisa criteriosamente as primeiras impressões e levanta a dúvida. Por isso a escolha da peça Doze homens e uma sentença para abrir o seminário foi tão acertiva.

O jornalista é, ou deve ser, por natureza, um questionador. Ele levanta uma dúvida razoável sobre os gastos do governo, sobre as provas de um crime, sobre a idoneidade de uma empresa ou de uma campanha política, sobre o sistema de saúde pública. Levanta dúvidas e vai atrás de respostas para construir a matéria, ou levanta dúvidas sobre uma matéria pronta e corrige as incertezas.

Mas será que é assim no Brasil? Será que nós jornalistas duvidamos das declarações que nos são oferecidas feito pastel de feira por políticos, autoridades, especialistas? Nosso papel é duvidar e não engolir o que vem pronto das assessorias de imprensa, como cães que aceitam restos de comida.

É certo que, como Dines colocou em sua palestra, a imprensa brasileira é tardia. O primeiro jornal impresso surgiu em terras tupiniquins 308 anos depois do descobrimento. Nos EUA, bem como em outros países, a imprensa tem muito mais experiência, maturidade e distribuição. O jornalismo regional por exemplo, que poderia ser um forte instrumento para levantar dúvidas, ainda é muito fraco em nosso país. Os jornais americanos do interior são tão fortes em suas regiões quanto os grandes veículos das capitais. As cidades retratadas nos velhos filmes de faroeste tinham sempre o Saloon, a delegacia e o jornal. Frequentemente um dos personagens era um jornalista que desvendava os crimes que a polícia não resolvia.

Muita coisa ainda precisa mudar no Brasil. Muitos processos preciso evoluir e isso leva tempo. Talvez algumas gerações…

Nem por isso devemos usar a história como desculpa. É importante plantar a semente da dúvida agora, mesmo que ela demore séculos para florescer e que todos ainda duvidem.


Sobre o jornalismo

Há algum tempo que eu não refletia sobre o jornalismo. Talvez por minha situação de freelancer, talvez por minha desilusão com o mercado, não sei ao certo. O fato é que um jornalista, atuante ou não, nunca deve deixar de refletir sobre sua profissão. Fui levada à reflexão por um seminário promovido pelo Banco do Brasil (quem diria, há poucos dias eu pretendia jogar uma bomba na minha agência!).

O seminário começou com uma peça de teatro. Mas não era uma encenação amadora e entendiante, muito menos entretenimento puro e simples. A peça Doze homens e uma sentença é uma adaptação do clássico filme homônimo (no original 12 Angry Men), que já teve duas versões, uma em 1957, outra em 1997. O clássico americano encenado no palco está em cartaz em São Paulo e eu tive o privilégio de assistir. Já tinha visto uma parte do filme e notei que foi revivido com brilhantismo pelo elenco brasileiro.

A história é sobre a discussão de um corpo de jurados formado por 12 homens. Eles se reúnem para discutir se um jovem de 16 anos, acusado de matar o pai como um faca cravada no peito é culpado ou inocente. A peça toda se passa dentro da sala de júri. Na primeira votação apenas um jurado acredita na inocência do garoto. Ele não tem certeza e é essa a questão: a dúvida razoável. Dúvida razoável é um termo jurídico. Um réu só pode ser condenado, e no caso da peça, levado à cadeira elétrica, se não houver nenhuma dúvida sobre sua culpa. Se houver dúvida ele deve ser inocentado.

Ocorre que à primeira vista todos os fatos levam a crer que o jovem é culpado. Mas uma análise mais cuidadosa, sem julgamentos preconceituosos. levanta dúvidas razoáveis. Um jurado tem pela frente a missão de convencer outros 11 homens de que talvez o réu seja inocente. Não vou contar o fim porque vale a pena assitir ao filme.

Pensei sobre o motivo da escolha daquela peça para um encontro entre jornalistas. Minha dúvida foi logo respondida pelo brilhante jornalista, escritor e professor Alberto Dines. A conclusão de Dines fica para o post de amanhã!