Quando é hora de voltar…

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Prometi esse post para uma amiga brasileira que decidiu ir embora.

O objetivo era publicar antes da sua partida e meses depois de ela ter voltado ao Brasil, o texto continuava na pasta rascunhos.

Seria minha indecisão inconsciente sobre a minha própria volta que me impedia de escrever?

E por que é tão difícil voltar? Por que é tão difícil tomar essa decisão, se voltar ao Brasil também significa voltar para a família, para os amigos, para a nossa gente?

Porque não dá pra deixar um lugar onde os caixas eletrônicos ficam na rua e você pode sacar dinheiro à noite sem temer pela sua vida.

É difícil deixar um lugar onde 95% dos passageiros dizem obrigado para o motorista do ônibus ao descer.

Aliás, é difícil deixar um lugar onde o transporte público é tão bom que você não sente necessidade de ter um carro.

Não é fácil abandonar esse povo que pede desculpas pelo mais sutil dos esbarrões, mesmo quando a culpa foi sua.

É penoso deixar um lugar onde você ganha como faxineiro, o mesmo salário que ganharia em seu país com seu diploma, pós ou mestrado.

É difícil ir embora sabendo que em seu país seu salário de diplomado não lhe garante a mesma qualidade de vida que você tem aqui trabalhando como um atendente de loja.

É difícil dizer quando é hora de voltar porque viajar está o tempo todo ao alcance de todos.

É triste deixar esse mix de culturas, línguas, nacionalidades e amizades.

Também dói deixar tantas pints de Guinness pra trás…

Então quando é hora de voltar?

Pra mim pode ser agora. Pra minha amiga foi há dois meses. Pra outros pode ser nunca mais.

Porém não pense que a vida aqui é uma maravilha só! A Irlanda tem sim seus problemas e não sãos poucos…

A vida aqui não é fácil. É que apesar de dura, é justa.

Por isso é tão difícil voltar a um país onde sabemos que a vida pode ser tão dura quando injusta.

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Tolerei

Aprendi a ser uma pessoa tolerante na marra. Na escola sempre fui a primeira da fila. Ser a primeira da fila quer dizer: baixinha, magrinha, tão frágil que balança até com uma brisa.

Por isso nunca me envolvi em brigas. Brigas de criança mesmo. Tinha muito, mas muito medo de apanhar.

Também sempre fui sensível. Se levantassem a voz para mim eu começava a chorar no mesmo instante (algo que não mudou muito de lá para cá!).

O resultado foi que eu passei a ignorar solenemente as provocações ou qualquer situação que pudesse provocar uma discussão. Não queria apanhar, muito menos levar bronca da professora.

Trinta anos depois aquilo que eu acreditava ser uma fraqueza, um traço falho da minha personalidade, acabou se revelando uma grande qualidade. Sim, agradeço pela minha pouca altura e covardia alguns anos atrás, pois foram elas que moldaram em mim um perfil mais tolerante e menos encrenqueiro.

Trabalhando do outro lado do balcão de um fast food exercito ainda mais essa tolerância. Não como atendimento ao cliente, mas como observadora e como a própria cliente. Como é bom trabalhar quando quem é servido sorri, olha nos olhos e agradece o serviço! E como é triste ver uma pessoa sendo grosseira com um desconhecido apenas porque ele pôs gelo no refrigerante! Confesso que depois de um ano como caixa no KFC estou revendo meu perfil tolerante enquanto consumidora também. Afinal, que culpa tem o atendente dos problemas da loja?

Hoje ninguém deixa barato. Pega mal. Até ser gentil pega mal. Quanta briga desnecessária. Estresse e desgaste apenas para manter a máxima “não levo desaforo para casa”. Quer saber? Eu também não levo. Eu jogo fora. Livro-me logo do danado antes de entrar pela próxima porta.

Pois se você acha que ser flexível é ser covarde ou que tolerar um erro no restaurante é ser banana, sinto muito meu amigo, mas você provavelmente vai morrer de câncer. E muito antes do que eu.

zangado

Essa semana, no Guarujá, uma briga num restaurante resultou em uma morte. O motivo? A conta estava supostamente sete reais mais cara do que deveria ser.

Passagens assim lembram-me uma mensagem que circulava tempos atrás via e-mail (antes dos spams encontrarem o facebook). O título do e-mail era: “a porta do lado”. Ele falava sobre algo comum: quando alguém estaciona o carro na garagem do prédio muito perto do seu carro e você fica sem espaço para entrar. Algumas pessoas entram pela porta do passageiro, ligam o carro e vão embora. Outras esbravejam, chamam o porteiro, chamam o síndico, estragam o dia de todo mundo por causa do desavisado que estacionou mal.

É um exemplo perfeito de como a tolerância pode fazer bem ao coração. No fim do dia, você não vai nem lembrar o quanto foi desconfortável entrar no carro pelo outro lado e pular o freio de mão. Já o cara que chamou o síndico…

Se você não era o primeiro da fila e ainda era bom de briga na escola, provavelmente exercitar a tolerância vai ser um pouquinho mais difícil do que é para mim. Mesmo assim vale a pena. Eu aconselho. Se puder tentar a gentileza também seria ótimo.

Ok, ok, ser tolerante já é um grande desafio, talvez ser gentil seja demais por enquanto, mas um dia a gente chega lá!


Teria partido…

Hoje eu estaria voltando para o Brasil. Meu voo saiu cedo de Dublin, conexão em Amsterdã, depois São Paulo e por volta da meia-noite eu estaria chegando a Curitiba.

O avião partiu com meu assento vazio e um espaço a mais no bagageiro.

Há muito tempo planejo escrever um post para explicar o porquê de ficar. Só que alguns porquês aceitam apenas a resposta que criança não gosta: porque sim.

Não é uma decisão muito lógica. É uma escolha mais sentida do que pensada.

Não espero ser compreendia por quem aqui não está, pois eu mesma já incompreendi muito quando cheguei. Conhecia brasileiros que renovavam seus vistos para continuar na cidade fria e chuvosa, trabalhando como garçons e deixando expertises diversas de lado, ouvindo esse estranho sotaque irlandês. Não conseguia ver os motivos. Achava estranho. Talvez fossem muito infelizes no Brasil, ou não tivessem família. Talvez.

Hoje sou eu quem vence a saudade de casa para abraçar o inverno cinza de Dublin mais uma vez. Entendo agora que aqui não somos mais felizes, apenas somos felizes de uma forma diferente.

Agora o inesperado dará lugar à experiência: o segundo inverno, o segundo Natal, o segundo St. Patricks Day.

A vontade de ficar veio depois dos primeiros árduos seis meses. A adaptação é necessária. À língua, aos hábitos, ao clima, às pessoas, à comida. Foi bem de repente, quando um dia, em vez de contar há quanto tempo eu estava aqui, contei quanto tempo faltava para ir embora.  Aí bateu o desespero. Seis meses? Cinco meses? É pouco. Pouco para o tamanho do amor que tinha crescido dentro de mim. Amor pela Irlanda e por Dublin, sim. Mas amor também por mim mesma, pelo novo, pelo desafio, pela mudança, pelo inesperado.

Se sinto saudades? Muitas. Todos os dias. A falta que sinto da minha família é das mais doídas.

Só que muita coisa me espera aqui em Dublin. Muita coisa que ainda não alcancei, mas estou perto. Muito mais coisas para aprender a gostar.

Hoje encontrei o anel no meu pedaço de Brack, um pão de frutas parecido com o panetone, tradicional no Halloween irlandês. O doce é assado com um anel dentro que diz a lenda, traz sorte a quem o encontra.

Deve ser um sinal de que a sorte estará ao meu lado mais uma vez, como esteve durante cada pequena conquista que realizei até agora.


Elegante e fétida Paris

Tenho lido muitos blogs de viagens. Se há uma vontade que continua latente é a de viajar. Só consegui sossegar durante esse tempo todo de Irlanda porque conheci algumas cidades antes de aterrissar na Ilha Esmeralda.

E por incrível que pareça escrevi apenas um post sobre a incrível viagem que antecedeu o intercâmbio. Para tentar apaziguar esse desejo de quero mais resolvi escrever sobre Paris.
Sim, a Paris que tantos amam não foi a cidade de que mais gostei. Foi parada obrigatória na escolha do roteiro pelo simples fato de ser Paris. E só por isso já vale a pena.

Cidade de contrastes, muitos talvez parecidos com os das grandes metrópoles brasileiras. A primeira impressão da cidade luz logo contrastou com o glamour dos filmes. O luxo contra a sujeira e o mau cheiro dos subúrbios.

Como eu fui parar no subúrbio? Simples. As estações de trem próximas ao aeroporto estavam em manutenção, o que nos levou a um ônibus, que nos levou três estações à frente. Com as enormes malas não tivemos outra chance se não pegar o fétido elevador que levava ao subsolo, onde poderíamos atravessar para a plataforma correta.

Foi com esse cheiro de vômito e miséria que chegamos a Gare du Nord. O odor instalado nas narinas não facilitou a relação com a Parrí dos sonhos, ao menos, não na chegada.

Depois de ficar em hotéis baratíssimos e maravilhosos na Itália, o hotel parisiense, embora pertinho do metrô, não se mostrou lá muito aconchegante.

Na entrada do restaurante arriscamos um “s’il vous plaît” e finalmente uma boa surpresa: a famosa antipatia dos franceses ainda era nossa desconhecida! O gerente do restaurante coloca música brasileira em nossa homenagem. E não era Michel Teló, era Marisa Monte, uma casual frequentadora do lugar. Ponto para os franceses.

Li em alguns dos muitos blogs de viagens, que para quebrar o gelo na França, basta arriscar um Bonjour. O vocabulário de meia dúzia de palavras em francês serviu para este propósito durante toda a viagem.

No dia seguinte, uma (irritante) simpática venezuelana hospedada no hotel resolve nos acompanhar no mais clássico dos passeios turísticos parisienses: a torre. Com sua amigável presença, a chateação de esperar duas horas na fila para subir no monumento ficou ainda mais clássica. Mesmo assim a vista compensa.

Outro clássico que valeu a visita foi o Louvre. Não pela Monalisa, mas pelo conjunto da obra.

O passeio pela Champs-Élysées foi o mais revelador e ao mesmo tempo conturbador de todos. Deixou em mim a impressão de uma Paris de mentira. A Paris locação de Hollywood. Um charme que só pode ser apreciado com muito dinheiro. Muito mesmo. Um consumismo desnecessário que insiste em destruir a imagem da elegância pura e simples.

A torre durante a noite até valeu o susto de se perder no metrô. Aliás, apesar de malcheiroso, o metrô parisiense é indescritivelmente pontual e alcança a cidade toda.

A maior lição de Paris foi não se prender ao turismo de massa. Atrações turísticas “importantes” demais tendem a esconder o que a cidade tem de melhor. Como o famoso café da Amélie Poulain. O almoço com miúdos de cabra (ou qualquer animal semelhante) era intraduzível tanto do francês, quanto do inglês. A orientação do garçom de que o prato era muito, muito especial não foi suficiente para alertar que a carne exalava o mesmo cheiro da primeira estação de trem. Um simples crepe de limão em um café da esquina foi o ponto alto da gastronomia parisiense para nós.

Claro que dois dias são pouco para uma cidade de 12 milhões de habitantes e milhares de anos de história.

Por isso ainda pretendo dar mais uma chance a Paris. Outra visita, outros passeios.

Quem sabe ignorando as duas horas de fila para subir na torre, tenho mais tempo para conhecer a Paris que não está no Louvre ou no Arco do Triunfo, a Paris de verdade. A Paris dos parisienses, que ao contrário da expectativa, se revelaram simpáticos e acolhedores.


Ninguém morre de amor…

Quando o amor vai embora, dói.

Dói pra caramba. Só quem já sofreu de amor sabe que é uma dor física. É tão amarga e cortante que parece fazer sangrar a pele e não só a alma.

Mas passa. Sempre passa. Não é um conselho, porque na hora das lágrimas, conselhos não fazem efeito. É apenas uma constatação mesmo.

Para alguns leva semanas. Outros se declaram curados depois de alguns meses. E ainda tem aqueles que passam anos tentando entender por que foram abandonados.

Para os que nunca se curaram eu explico: não é culpa do amor, é culpa sua! Porque o amor não foi feito para amargurar a vida. Ele foi feito para ensinar, para ser parte da evolução.

Às vezes a evolução pode ser não confiar mais no outro. Não acreditar mais no sentimento puro e simples. Construir uma muralha que impede a entrega e consequentemente a dor.

Mas e aí, no pain, no gain, certo?

Por isso eu acho que a verdadeira lição do coração quebrado demora um pouco a chegar. Pelo menos para mim demorou.

A lição não está na quebra da confiança, no abandono ou nos erros cometidos em relações passadas. A lição está na cura. Na recuperação.

Quando você percebe que está bem novamente, se dá conta do quão forte ficou.

Essa sensação ensina que se você superou uma vez, pode superar outra e outra e outra e quantas forem necessárias…

Porque amor é isso mesmo. Você perde ou você ganha, mas tem que jogar para saber.

Medo de me machucar outra vez? Não, não tenho. Agora eu sei que se a dor vier, ela não mata.

Dura o tempo que tiver durar, até que outro amor tome seu lugar…


Tic-tac

Ainda pequena aprendeu que não podia confiar nele.
Ô cara chato. Nunca ajudava. Quando precisava de um pouco mais, ele era menos.
Já brincou bastante, hora de ir para casa, hora de tomar banho, hora de dormir… Por que raios ele passava tão rápido?
E muito pior era quando precisava que as coisas acelerassem. Ele atrasava tudo. Amanhã você vai, depois eu abro, semana que vem você brinca…
Cansava de esperar…
O mais cruel era o famoso “quando você crescer”.
Caramba, se amanhã demorava tanto para chegar imagina “quando você crescer”?
Já nem esperava, porque tinha certeza que não chegaria nunca!

Chegou. E como chegou rápido. Agora que ela não precisava mais de pressa.
Quando curou-se da primeira dor de amor, descobriu que ele era mesmo essencial…
Mesmo assim ainda não sabia como lidar com ele… Ele era teimoso.
Passava horas imaginando como ele seria se tivesse forma ou se fosse humano.
Seria uma criança? Ou um ancião?
Ficava imaginando como ele corria os ponteiros do relógio da vida só para brincar com ela. E como ele segurava com força os mesmos ponteiros quando ela queria que eles voassem! Devia gargalhar maldosamente quando ela checava as horas a cada dois minutos.

Até que um dia, muitos anos depois, ela conseguiu vê-lo.
Ele estava no espelho. E ela podia tocá-lo também.
Ele estava em seu rosto. Ao redor dos olhos, em finas linhas que ficavam mais evidentes quando ela sorria.
Foi então que ela percebeu. Ele poderia ter tanto a forma de uma criança, quando a forma das rugas que começavam a aparecer.
Tudo dependia da forma com que ela o encarava no espelho.
Talvez nunca iria saber ao certo como lidar com ele.
Por via das dúvidas, melhor comprar um bom creme antirrugas.


E só restou a esperança

Há um tempo eu escrevi um post comparando o Brasil com a Europa. Na verdade a ideia era dizer que é injusto comparar nosso país com os países europeus.

Em uma página de argumentação baseada em alguma pesquisa histórica eu tentava explicar porque estamos tão aquém do desenvolvimento europeu.

Eu falava que enquanto países da Europa vivenciavam a revolução industrial, o Brasil ainda nem tinha abolido a escravatura. Quando os trabalhadores europeus começaram a se rebelar contra as péssimas condições de trabalho nas indústrias, nosso país ainda era colônia de Portugal e vivia da exploração do café.

Falava também que os franceses derrubaram a Bastilha em 1789, e o Brasil ensaiava revoltas com Tiradentes.

Falava da educação. Um trecho que eu gostava era esse: “enquanto muita gente senta a bunda no MacBook para reclamar do Brasil no Facebook, a dona Maria da Silva sai de casa às 4 horas da manhã para chegar ao trabalho. Volta pelas 10 da noite, depois de ônibus e trens lotados. Ela está preocupada com os filhos e netos. Assim como a maioria do povo brasileiro, ela está preocupada em colocar comida na mesa. Você acha que ela está preocupada com o fraude no ministério das Minas e Energias? Não. Ela não está. Porque não tem consciência política? Não, ela não está preocupada porque não sabe o que é ministério, nem o que é minas e energia. Ela mal sabe para que serve um vereador, quanto mais um ministro. Ela não estudou, não tem como saber. “

Parte desta “defesa” veio de uma palestra que assisti em um seminário de comunicação, que falava sobre o aumento do poder de consumo da classe C. O palestrante, um publicitário baiano muito conhecido no meio, tentava explicar como o povo ganha poder de compra e vai ficando mais crítico aos poucos.

Eu estava revoltada com pessoas falando mal do meu país e dizendo como é melhor viver na Europa, mesmo com crise. Queria que dessem um tempo pro Brasil, sabe? Afinal a civilização europeia é pelo menos uns 500 anos mais antiga que a nossa.

No final percebi que a argumentação do tempo não funcionava. Por que nos Estados Unidos, embora eu não tenha pesquisado, acredito que as coisas funcionam bem melhor do que no Brasil, e eles são tão “novatos” no quesito civilização quanto nós!
Por isso nunca publiquei o artigo. Estava procurando mais argumentos a favor do Brasil.

Aí o Demóstenes foi cassado. Pensei “pode ser um bom argumento pra finalizar meu post!”. Tive a oportunidade de entrevistar o ex-senador em Goiás e posso afirmar que em menos de cinco minutos de entrevista ele provou (para mim) que é um canalha e que essa história de ser relator de CPI é só para posar de bonzinho e ferrar quem está no caminho dele.

Mas aí, o Demóstenes reassumiu o cargo de procurador de justiça no MP de Goiás.

E eu fiquei sem argumento outra vez.

Minha única defesa agora é a esperança. E sem qualquer explicação lógica, minha esperança é real e muito forte. Não me pergunte por que, mas eu acredito no Brasil. Ainda acredito. Acredito que um dia, quando eu não estiver mais nessa vida, as coisas vão mudar. Talvez nem meus netos poderão presenciar a mudança, mas eu sei que ela vai acontecer.

Porque perder a fé no Brasil é como a perder a fé no ser humano. E se tem algo que eu aprendi nos últimos meses é que nunca devemos perder a fé nas pessoas. Sigo acreditando… acreditando que um dia o meu povo finalmente irá erguer a bandeira verde e amarela, pintar a cara outra vez e dizer: “tenho orgulho de ser brasileiro!”.