Abandonando um grande amor

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Nunca imaginei que fosse possível se apaixonar por um lugar. Não falo de amor como expressão, dito depois de uma viagem de férias:  “Amei a cidade!”.

Falo de amor como relação. Daquele amor que chega a doer no peito de tão forte.

Aquele amor que faz você decorar cada traço do rosto da outra pessoa.

Aquele amor que faz você esquecer todo o resto, quando no mundo não existe mais nada além de você e o ser amado.

Um amor que te deixa com cara de besta, porque faz você se apaixonar por coisas bobas.

O jeito como ele dorme abraçado ao travesseiro. A mania de checar se o fogão está desligado antes de sair de casa. A expressão de seriedade e tensão durante uma partida de futebol.

É desse amor que estou falando. Quando você conhece o outro tão bem que não sabe direito onde termina você e começa ele.

Eu amo o jeito que Dublin fala cheers.

Eu amo quando ela me deixa irritada com a chuva e o vento.

Porque quando ela faz sol, aaaah! Sei que a espera gelada valeu cada grau Celsius.

Amo as portas coloridas.

Amo olhar pela janela do ônibus quando atravesso o Liffey.

Adoro caminhar pela Grafton sem pressa, parando em cada busker.

Também adoro me perder pelas ruas de Dublin 2, tentando me convencer de que estou no caminho certo.

Amo pegar o 16 e ir para o aeroporto.

Amo pedalar pelas ruas de Dublin, com ou sem pressa.

Amo o verão, tolero o inverno. Porque amar também é tolerar os defeitos do outro.

Amo as liquidações.

E a noite? A noite de Dublin é tipo sexo de fazer as pazes. Intenso, louco, forte. E dá vontade de brigar de novo só pra poder repetir!

Amo os taxistas falantes e suas histórias.

Amo a Guinness. Mas também amo o Jameson, a Paulaner, a Hoegaarden… Impossível não se embriagar com a magia altamente alcoólica de um pub irlandês.

Amo chá com leite.

Amo o sotaque irlandês.

Amo chickel roll.

Amo o interior da Irlanda.

Não consigo viver sem o Irish Breakfast.

Poderia continuar minha lista, mas dói. E dói porque está chegando a hora de deixar esse amor.

Já comecei a me despedir. Despedida difícil e dolorosa, como tem que ser quando se abandona um grande amor.

Um amor que transformou você em uma pessoa melhor.

E mesmo assim você vai deixá-lo. Difícil entender o porquê da partida, mas chegou a hora.

O ciclo está se fechando outra vez.

Não tenho dúvidas de que tomei a decisão certa, mas isso não me impede de ter medo.

Medo de que a saudade de Dublin seja mais do que eu possa suportar.

Medo de que a dor da perda não passe.

Tenho medo de não conseguir levar comigo a pessoa que me tornei aqui.

Medo da tristeza. Porque a Irlanda não merece minha tristeza. Um amor que me proporcionou os dois melhores e mais intensos anos da minha vida, não merece nada além de sorrisos e doces memórias.

Por isso, daqui em diante, minhas palavras sobre a despedida se reduzirão a “I’m grand, I’m grand.”